Em que lugar da casa a criança deve dormir?

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É bem verdade que tal pergunta parece um tanto provocativa, mas afirmo que a ideia é essa mesmo: mexer com quem está quieto, ou melhor, com quem porventura esteja fora do seu lugar.

É comum na escuta clínica como terapeuta de crianças e famílias, ou mesmo no senso comum, ouvir pais comentarem que seus filhos dormem em seu quarto, e por vezes, dividem a cama com o casal.

Também é sabido que os primeiros dias e meses de vida da criança demandam muito dos pais, especialmente da mãe, que precisa entre outras coisas acordar e levantar duas, três, quatro ou cinco vezes para trocar, acalentar e principalmente amamentar seu bebê, então, já que peito, mãe, bebê e cama estão todos ali no mesmo canto, por que não dormir logo todo mundo junto?

Porém, é muito importante lembrar, que na cama há uma terceira pessoa, nesta feita- o pai, e aqui, vale destacar um preceito da psicanálise infantil que diz: para a mãe seu bebê é um pedaço dela, e para o pai é uma terceira pessoa.

E é por isso também que cabe à mulher conciliar bem seu tempo, a atenção e, mesmo o seu corpo entre o bebê que precisa da mãe e seu marido que precisa da esposa.

Vale também pontuar, que a princípio o homem não entende muito bem toda essa mudança e força, que marcam a relação mãe-bebê.

Tanto amor e cuidado na relação mãe-filho, devem diminuir seu grau e intensidade, à medida que a criança vai crescendo e ganhando certa independência, pois, essa postura ou mudança de postura dos pais, servem tanto para preservar a conjugalidade e intimidade desses enquanto casal.

Portanto, também proporcionar ao filho, o desenvolvimento de uma base emocional sólida, em que a criança pouco a pouco comece a compreender que ele e sua mãe não são a mesma pessoa, e que até já consegue suportar alguns momentos de ausência, por exemplo, durante a noite na hora de dormir, e também, já consegue suportar algumas frustrações e até mesmo seus medos, que no caso de crianças, muitas vezes, são apenas frutos da sua fértil imaginação e não de sua realidade propriamente dita.

Quanto à participação do pai no processo de cuidado do filho, cabe o compartilhamento de forma efetiva, pois essa atitude terá reflexos tanto no seu relacionamento conjugal, ao fazer um corte na relação mãe-bebê que, caso não tenha uma interdição, poderá evoluir para o que chamamos de “relação simbiótica”, que constitui o apego da mãe com o filho um tanto exagerado, podendo produzir efeitos desfavoráveis tanto para a mulher, que de certa forma se fecha para seus demais papéis, vínculos e atividades, como também para o filho, que tem sua autonomia e desenvolvimento emocional e psicológico comprometidos.

 

Assim, cabe ao pai a tarefa de “se intrometer” nessa relação e de certa forma “colocar freio”, por exemplo, à noite após o carinho e afago ofertados ao filho, o pai deve encaminhá-lo de volta para o seu berço, cama, rede ou mesmo para o seu quarto.

Detalhe aqui, é que esse movimento depende da idade, condição econômica e dinâmica familiar, que varia de caso para caso, mas importante mesmo é a compreensão dos pais quanto à necessidade de está fazendo pequenos movimentos rumo à preservação da privacidade, tanto do casal quanto da criança, que segue em pleno processo de desenvolvimento.

Do ponto de vista psicológico, a atitude paterna de levar ou retornar o filho “para dormir no seu canto”, serve como uma leve instrução de pai para filho ao dizer:

Tudo bem, você já recebeu o carinho dela, agora é a minha vez!

Claro que essa mensagem se dá de uma forma simbólica, e nunca sob a égide de uma competição, pois quando o pai participa da relação de cuidado do filho, esse também recebe uma mensagem da criança, que o fala ainda que sem palavras, a seguinte expressão:

Tudo bem tem mamãe pra todo mundo!

Todo esse manejo dos pais para com o filho propõe um ambiente familiar em que todos crescem: o casal, que vivencia de uma forma saudável  a chegada do filho, a mãe que após um período de intenso cuidado, que quase “a grudava ao filho”, passa a compreender que ele  pode e deve crescer, e assim, “se voltar” para o que ficou para trás ou em stand by com o nascimento da criança, como por exemplo, seu trabalho, seu corpo e por vezes seu marido.

Também cresce o pai, que passa a reconhecer a criança como algo seu e um “aliado” na sublime tarefa de amar aquela linda mulher, e por fim, a criança que vai ganhando liberdade e espaço para desenvolver sua autonomia, e certamente demarcar seu canto no mundo, ou porque não dizer “seu  lugar ao sol”.

Andréia Leite – Psicóloga Coach e Palestrante nas áreas de Comportamento infantil e relacionamentos familiares.

 

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